![]() Cinqüenta anos: espelho d'água,ou névoa? Tudo límpido. Ou o tempo corrói o incalculável tesouro? Vem do abismo de cinqüenta anos, gravura em talho doce, a revelação de Emílio Moura. Era tempo de escolha.Escolha em silêncio, definitiva. Na rua, no bar, nossos companheiros esperam ser decifrados. Mas o sinal os distingue. Descubro e é para sempre, a amizade de Emílio Moura. Agora a noite caminha no passo dos estudantes versíferos. Bem conhecemos as magnólias, as mansões art nouveau, os guardas-civis, imóveis em cada esquina. Vou consultar um outro eu: a presença de Emílio Moura. E Verlaine, Samain, Laforgue, Antônio Nobre, Alphonsus, tanta gente, nos acompanha sem ruído. Começa a tecer-se, renda fluida na neblina, a canção de Emílio Moura. Canção de câmara: a que ele escreve e o que ele é. Peculiar surdina, íntimo violino, jeito manso de ser, que escapa aos trovões pop e risca em fundo cinza a alma de Emílio Moura. Alma que interroga. Ao mundo todo interroga, constante. Há um impasse de ser, na graça de sentir. E não se basta o homem. Ave-problema, esvoaça a dúvida de Emílio Moura. No céu de dúvidas, o amor responde ao poeta, aponta-lhe os iniludíveis alvos deliciosos em que a dor adormece e em que floresce o canto, a explicação de Emílio Moura. Ah mineiro! que tem minas nem mesmo dele sabidas, pois não as quer explorar, e toda glória é fuligem. Mineiro que cala e cisma, e é quando mais se adensa a Minas de Emílio Moura. Mineiros há que saem. E mineiros que ficam. Este ficou de braços longos para o adeus. Em Belo Horizonte, rumos sem verdes, é água pura a permanência de Emílio Moura. Ei-lo que chega, vem trazer a magrilonga figura amada a amigos longe, em festa calma. E conversá-lo e vê-lo é sentir, indelével a suavidade de Emílio Moura. Agora não vem mais. Agora, é procurá-lo em cinqüenta anos vividos, em papéis, em retratos, é transferir a pessoa viva a um cofre de ouro: a poesia de Emílio Moura. Pois aconteceu a coisa aquém e além da vida, e nem vale chorar nem vale sofismar. O fato novo extingue a casa transparente de estar-perto: a morte de Emílio Moura. Neste fato penetro e o vou todo explorando. Corredor ou caverna ou túnel ou presídio, não importa. Uma luz violeta vai seguir-me: a saudade de Emílio Moura. Publicado no Estado de Minas: 5/10/71 e no livro: As Impurezas do Branco. |