A UM POETA IRMÃO

Carlos Drummond de Andrade


Cinqüenta anos: espelho d'água,ou névoa? Tudo límpido.
Ou o tempo corrói o incalculável tesouro?
Vem do abismo de cinqüenta anos, gravura em talho doce,
a revelação de Emílio Moura.

Era tempo de escolha.Escolha em silêncio, definitiva.
Na rua, no bar, nossos companheiros esperam ser decifrados.
Mas o sinal os distingue. Descubro e é para sempre,
a amizade de Emílio Moura.

Agora a noite caminha no passo dos estudantes versíferos.
Bem conhecemos as magnólias, as mansões art nouveau, os guardas-civis,
imóveis em cada esquina. Vou consultar um outro eu:
a presença de Emílio Moura.

E Verlaine, Samain, Laforgue, Antônio Nobre,
Alphonsus, tanta gente, nos acompanha sem ruído.
Começa a tecer-se, renda fluida na neblina,
a canção de Emílio Moura.

Canção de câmara: a que ele escreve e o que ele é.
Peculiar surdina, íntimo violino, jeito manso de ser,
que escapa aos trovões pop e risca em fundo cinza
a alma de Emílio Moura.

Alma que interroga. Ao mundo todo interroga, constante.
Há um impasse de ser, na graça de sentir.
E não se basta o homem. Ave-problema, esvoaça
a dúvida de Emílio Moura.

No céu de dúvidas, o amor responde ao poeta,
aponta-lhe os iniludíveis alvos deliciosos
em que a dor adormece e em que floresce o canto,
a explicação de Emílio Moura.

Ah mineiro! que tem minas nem mesmo dele sabidas,
pois não as quer explorar, e toda glória é fuligem.
Mineiro que cala e cisma, e é quando mais se adensa
a Minas de Emílio Moura.

Mineiros há que saem. E mineiros que ficam.
Este ficou de braços longos para o adeus.
Em Belo Horizonte, rumos sem verdes, é água pura
a permanência de Emílio Moura.

Ei-lo que chega, vem trazer a magrilonga
figura amada a amigos longe, em festa calma.
E conversá-lo e vê-lo é sentir, indelével
a suavidade de Emílio Moura.

Agora não vem mais. Agora, é procurá-lo
em cinqüenta anos vividos, em papéis, em retratos,
é transferir a pessoa viva a um cofre de ouro:
a poesia de Emílio Moura.

Pois aconteceu a coisa aquém e além da vida,
e nem vale chorar nem vale sofismar.
O fato novo extingue a casa transparente de estar-perto:
a morte de Emílio Moura.

Neste fato penetro e o vou todo explorando.
Corredor ou caverna ou túnel ou presídio,
não importa. Uma luz violeta vai seguir-me:
a saudade de Emílio Moura.


Publicado no Estado de Minas: 5/10/71
e no livro: As Impurezas do Branco.